A dor precisa ser sentida

“My favorite book, by a wide margin, was An Imperial Affliction, but I didn’t want to tell people about it. Sometimes, you read a book and it fills you with this weird evangelical zeal, and you become convinced that the shattered world will never be put back together unless and until all living humans read the book. And then there are books like An Imperial Affliction, which you can’t tell people about, books so special and rare and yours that advertising your affection feels like a betrayal.” John Green – The Fault in Our Stars pg 33


Começo esse texto sabendo que o trecho acima resume o sentimento de praticamente todas as pessoas que, como eu, acompanharam o processo de escrita de The Fault in Our Stars, leram e depois deitaram no escuro sem fazer nenhum ruído e deixaram tudo o que o livro diz assentar dentro de si. Por isso não existe outra maneira de começar.
Preciso apelar pra um personagem de outro livro, de outro autor, pra tentar explicar como uma mistura tão controversa de sentimentos pode nascer de letras pretas simplesmente impressas em um papel amarelado. Charlie, de The Perks of Being a Wallflower, disse o seguinte: “So this is my life. And I want you to know that I am both happy and sad and I’m still trying to figure out how that could be”. Eu ainda tento me perdoar por ter ciúmes de TFiOS (A Culpa é das Estrelas, lançado em português essa semana pela Intrínseca), tento entender como é possível saber que o mundo precisa ler cada palavra lá escrita e ao mesmo tempo temer o que pode vir com isso. Eu ainda tento entender como é possível ver em um livro tantos sentidos que eu não consegui ver na realidade tão clara em que eu vivo.
A cronologia é simples. Eu acompanhei o John via Vlogbrothers enquanto ele ainda estava escrevendo a história, esperei ansiosamente minha cópia chegar pelo correio, devorei o livro ao mesmo tempo que tentava fazê-lo durar mais, depois me recolhi aos meus aposentos e fiquei pelo menos quarenta minutos parada olhando o teto, tentando entender o que aquilo me fazia sentir. Será que já deu pra perceber o quanto esse livro é especial pra mim? Isso vindo de alguém que lê compulsivamente e só começa a falar pra valer quando o assunto é… bom, vocês já sabem, livros.
Quando eu soube que uma tradução pro português seria lançada, fiquei extremamente feliz. Porque o mundo precisa poder ler e sentir o que eu senti. Que tipo de pessoa eu seria se quisesse guardar tudo só pra mim? Mas, ao mesmo tempo, fiquei com medo. Um medo bobo, de criança mesmo. A criança que eu sou tem medo de que, e isso vai soar creepy, o livro seja magoado. Por falta de uma palavra melhor, veja bem.
No mês passado, emprestei *insira aqui um Smeagol* meu precioso pra um amigo. Deixei bem claro que era importante pra mim. Não dobre, não amasse, não rabisque.  Ele me devolveu e falou que era “legal”. Eu me recolhi com todo meu coração dolorido. Na hora lembrei da minha história com Holden Caulfield. Todo o meu medo estava ali, concreto. Alguém tinha lido e prestado atenção no casal, na história… mas e as metáforas? E as milhões de entrelinhas? E todo os significados que faziam as páginas transbordarem? E todo o turbilhão de sentimentos que o livro provoca? Nessa hora percebi o mais doloroso: meu amigo é um cara inteligente. Ele com certeza entendeu as metáforas. Elas simplesmente não fizeram o mesmo sentido pra ele.
Esse continua sendo o maior desafio pra mim. Como conviver com o fato de que o que importa pra gente pode ser só mais uma existência boba pra todo o resto do mundo? Como convencer o subconsciente de que talvez isso baste?  Fica aqui a maior lição de TFiOS, aquela que eu ainda não aprendi: talvez importar só pra meia dúzia de pessoas seja suficiente.
Leiam. Leiam agora. Leiam no café da manhã de segunda-feira, no intervalo das aulas, antes de dormir. Leiam devagar, pensem em cada frase aparentemente boba que fica escondida por ali. Mas leiam. Só peço que sejam gentis. E se acharem “legal”, não me contem.
Anúncios