Porque pra mim eles terminam juntos

Eu li esse conto da Analu ontem e reclamei com ela porque precisava de um final feliz. Sabe aqueles dias em que você só quer mesmo um final feliz? Decidi continuar a história de Lilly e Guilherme, mas espero que o texto faça sentido mesmo para quem ainda não leu sobre esses dois.
Mas que vida clichê. Não era possível que as janelas com vasos de amor-perfeito fossem mesmo as janelas da casa dela e que o cheiro de café e chantily que tomava conta do ambiente fosse o mesmo cheiro que ela sentia todo dia de manhã quando descia as escadas atrasada e fingia ser convencida a se atrasar ainda mais por uma xícara de café artesanal na companhia de Guilherme. Até o Garcia Márquez duvidava que a vida se parecesse tanto à má literatura. Ela olhava os vasos de amor-perfeito e inalava o aroma de café e chantily tendo a mais absoluta certeza de que estava em algum tipo de vida frustrada e seria despertada de sua fantasia escapista a qualquer momento. Porque era impossível que a vida fosse assim clichê, assim incuravelmente romântica.
Era comum que pensasse assim e já tinha até se conformado em ser ligeiramente desequilibrada. Porque você precisa ser desequilibrado pra questionar sua própria vida todo dia de manhã pelo simples fato de que ela é boa. Mas tudo bem, Lilly aceitava ser ligeiramente desequilibrada, reservava seus minutos diários de neurose, depois afastava os olhos das janelas e sorria. Largava a xícara de café na pia e dava um beijo de despedida em Guilherme, que já se acostumara à correria dela e não achava mais incômodo que ela prestasse tão pouca atenção à conversa pela manhã e que olhasse fixamente pela janela. 
Guilherme tinha cinquenta e cinco anos. Lilly, cinquenta e um. Estavam juntos há dez anos e nesse tempo ele aprendera que ela jamais diminuía o ritmo. Mas aprendera também que era importante insistir que diminuísse. Naquele dia, Lilly passou pela porta da cozinha e já estava no meio do corredor quando voltou, ainda apressada, parou diante do pequeno quadro-negro e apanhou o giz. Limpou com as costas da mão o “Te amo” já um pouco apagado e escreveu “…ninguém a rouba mais de mim”. Guilherme viu-a sorrir novamente e sair. Terminou seu café calmamente, olhando para o quadro. Sabia que passaria o dia todo com uma leveza no espírito.
Haviam pendurado o quadro-negro na parede da cozinha logo no primeiro mês após a mudança, como uma espécie de símbolo romântico de recém-casados. O pequeno quadro-negro ficava na porta do café onde se conheceram e ele insitia ter tido um papel fundamental na vida dos dois. Guilherme fingia não se importar, mas ninguém escrevia nada ali já há algum tempo. Justamente hoje Lilly escrevera o verso de Drummond que eles repetiam um para o outro na época em que se reencontraram. Lilly estava divorciada há um certo tempo, alegou que o casamento com o médico canadense não sobrevivera ao primeiro inverno e à insistência dele para que ela largasse de vez a cafeína. Guilherme acabara de sair da casa da ex-esposa e se sentia infinitamente culpado por jamais ter demonstrado amá-la como ela esperava ser amada. Os dois se envolveram, dessa vez sem hesitações, e em uma tarde se depararam com o poema de Drummond enquanto passeavam por uma livraria. Decidiram ali que o poema seria uma promessa. Jamais se largariam novamente, mas se a realidade se impusesse sobre os dois e os separasse, prometiam não mais se enganar em amores de ocasião. Prometiam não deixar que ninguém os roubasse ou roubasse a ausência sem falta sobre a qual o poeta falava e os dois juravam de pés juntos entender. 
Dez anos desde então, vinte desde que Lilly decidira entrar no café pela primeira vez. As tentativas de não deixar o romance morrer por vezes eram frustadas pelas letras à giz que iam sumindo do quadro. Ela continuava correndo e se preocupando e sua mente estava sempre vagando. Ele continuava pregando a poesia como diferencial do mundo e ainda insistia para que todos desacelerassem por alguns minutos e se sentassem para uma conversa e um café com desenhos feitos no chantilly. Ela ainda olhava para os vasos de amor-perfeito na janela da cozinha todos os dias e questionava se aquela era mesmo sua vida ou apenas um livro previsível e reconfortante. Ambos sabiam que escolheriam o clichê todas as vezes. Escolheriam aquele final feliz todas as vezes. E sabiam que entre milagres ou literatura consagrada, prefeririam as flores, os cafés e os reencontros. Todas as vezes.