Caro Julho,

Em todos os anos que eu vivi até agora, você sempre foi o único mês importante pra mim. É claro que eventos importantes e dias incríveis aconteceram em outros meses, mas é sempre você que me traz o tempo necessário pra ser quem eu sou. Não janeiro e aquele calor que não me deixam pensar, não fevereiro e aquela urgência pra viver tudo de uma vez, não outubro e a necessidade de descobrir em poucos dias quem devo me tornar antes de comemorar mais um aniversário. Você, Julho, me permite deitar na mesma cama em que eu deito há tanto tempo, mesmo tendo tido vários outros tetos. Você, Julho, me permite voltar ao ponto de partida, mesmo tendo andado por tantos outros lugares. E eu sempre volto.
Os espaços não mudam. Mesmo que as coisas comecem a se empilhar neles, mesmo que alguns móveis troquem de lugar e mesmo que um aspecto de tempo deixe tudo com um ar diferente. Eles continuam contendo as mesmas cenas que presenciaram silenciosamente e o estranhamento é sempre meu, porque eu, sim, vim mudando de lá pra cá. Por isso é tão bom poder voltar e por isso eu preciso te agradecer, Julho.
Geralmente eu te recebo com uma certa apreensão, com medo do que você vai me trazer porque você sempre me traz alguma descoberta ou reencontro dentro de mim mesma. E é tão difícil enxergar a si próprio com clareza, não é mesmo? Mas dessa vez você me trouxe a paz que eu tenho buscado. Em uma dessas várias cartas que você anda recebendo, falaram sobre como é fácil ficar preso em locais familiares. Pra mim é fácil ficar presa em qualquer lugar, mas são os mais desafiadores que andam me fazendo mal. Essas paredes cheias de coisas que eu pendurei ao longo do tempo não me desafiam, é verdade, mas o céu aberto que eu encarei nos últimos tempos me prendeu muito mais. Pior do que isso, me calou muito mais. Por isso é bom poder me achar entre toda essa nostalgia que você me trouxe. É sempre muito bom encontrar espaço pra ser ou lembrar quem eu sou.
Dessa vez te encaro sem nenhum tipo de melancolia, Julho. Também já não tenho medo de nenhuma  das decisões que tenho pela frente. O que é irônico se você pensar que elas são as mais difíceis até agora. Mas tudo bem. Tudo fica bem porque eu já entendi que são só escolhas. Eu faço e refaço e é assim que eu vou me tornando a pessoa que preciso ser. Você, Julho, existe pra lembrar que não importa quem essa pessoa seja, ela sempre vai conter todas as outras pessoas que eu já fui. Então você sempre chega, eu sempre volto e, ao mesmo tempo, eu sempre continuo em frente.
Letters to July é um projeto da Emily no canal dela no Youtube. Resolvi escrever a minha e indico pra quem mais quiser. A Lorena já escreveu a dela, se quiserem ler.
Anúncios