Semântica existencial

Só outro dia descobri que Billy Joel não é um cantor que inspire muito respeito artístico ao redor do mundo, mas aí já era tarde demais e eu já declarara ser ele o compositor e intérprete da música da minha vida. O que, se você pensar bem, combina perfeitamente. Viena é a capital da Áustria e não é que eu queira visitar Viena por ser particularmente apegada à história Habsburgo. Na verdade, qualquer coisa ligada ao clã e à árvore genealógica Habsburgo tende a despertar alguns pesadelos, graças à falta de didática de um professor com quem me deparei pela vida. Mas Viena é, acima de tudo, uma metáfora. E tudo graças ao Billy Joel. Graças ao Billy Joel e a De Repente 30.

“Vienna” é uma música sobre alguém que tem pressa de viver. Uma definição que me cabia aos 10, aos 13, aos 17 e ainda cabe aos 21 anos. Quem sabe alguém possa chegar com uma explicação que justifique todas as manias da minha geração e me encaixe bem no meio dela, matando de vez aquela certeza silenciosa que (assim como todo e qualquer ser humano) possuo de que sou uma pessoa única e especial. Enquanto isso, vou vivendo e convivendo com a minha pressa. Uma vontade semelhante a um animal esfomeado que me faz viver cem anos em apenas um dia, tudo dentro da minha cabeça. E que me mantém acordada quase todas as noites, paralisada pela certeza de que preciso mudar. alguma. coisa. Preciso acordar agora mesmo, não amanhã, e pedir carona e trabalhar em qualquer coisa até ter dinheiro para pegar um voo e fazer mil coisas diferentes até ter certeza de que vivi pelos anos que virão e por todos os outros que já passaram e eu juro que estava dormindo mas na verdade estava acordada pensando em acordar agora, não amanhã e pedir carona e fazer mil coisas. Não é pressa, exatamente, é desassossego. Mas aparentemente algum ramo da psicologia tem o desassossego como um tipo de distúrbio, mas é isso mesmo. Eu durmo e acordo desassossegada.

“I can never read all the books I want; I can never be all the people I want and live all the lives I want. I can never train myself in all the skills I want. And why do I want? I want to live and feel all the shades, tones and variations of mental and physical experience possible in my life. And I am horribly limited.”

Sylvia Plath era desassossegada. Ela não terminou bem, então vivo tentando negar qualquer semelhança inegável. Então “Vienna” sempre se encaixou na minha vida, nos meus desejos, nas minhas viagens que são em sua maioria apenas na imaginação. E em várias dessas noites em claro, a música funcionou como mais um argumento de que estou de fato atrasada, porque tudo bem, só os tolos ficam satisfeitos, mas Vienna continua esperando por você. Viena espera por você. Espera e espera e espera e o que você está fazendo com a sua vida que ainda não foi lá?

Não que seja a Viena física. Claro que agora que tudo aconteceu, preciso prestar uma visita à antiga residência Habsburgo, com pesadelos ou não. Mas Viena, como eu disse, é uma metáfora de tudo que eu (e sejamos sinceros, acho que não tô sozinha nessa) acho que deveria estar vivendo ou já ter vivido pra ver se dá tempo de fazer tudo em uma vida só. Viena é aquela história de amor que começa boa demais pra não acabar mal e que faz você se descabelar porque é real demais pra ser real na sua vida. Viena é quando você descobre como dar a volta ao mundo com uma única mochila, mesmo que você seja o tipo de pessoa que leva duas bolsas imensas no dia a dia porque não sabe ser organizada e minimalista e muito menos sabe como dar a volta ao mundo. Viena é quando você consegue sentar em frente ao computador e escrever aquela história que te perseguiu a vida toda e você jurava que transformaria em livro antes de morrer até que, veja só, você conseguiu. Viena é a vida na sua cabeça que nunca é de fato a sua vida.

Mas eu achei que Viena estava esperando por mim. Aos 10, aos 13, aos 17 e aos 21 anos de idade. Jurava de pés juntos que precisava operar milagres e fazer caber todas essas histórias, peles, talentos e nuances dentro de mim. E precisava agora. Porque não haveria outra chance, outra vida. E olha, isso não mudou, não há mesmo. Só que o primeiro significado do verbo esperar é “Estar ou ficar à espera de; AGUARDAR”. E Viena pode muito bem esperar por mim. Pra uma cidade que existe desde 500 a.C., ela pode muito bem aguardar mais algumas semanas, meses e anos até que eu possa encaixar ela e suas implicações metafóricas na minha vida tão limitada, como Sylvia Plath já definiu.  Quer dizer, um lugar pode existir por séculos, ser destruído e reconstruído várias vezes e mesmo assim continuar lá. Por que não continuaria lá enquanto eu tento put my shit together? Isso a cidade. Porque as implicações metafóricas, ah, essas podem esperar por tempo indeterminado enquanto eu aproveito o caminho.

I am. I am. I am.

 

Anúncios