Estados de calma

ou “Última carta para Julho”
Caro Julho,

Eu sempre quis conseguir escrever sobre o que ouvir Death Cab for Cutie me faz sentir. Quase todas as vezes em que eu contei pra alguém que gostava da banda, ouvi a mesma conversa sobre como é uma banda deprimente. Não culpo ninguém. Com melodias lentas, repetições de refrãos meio agonizantes e letras por vezes melancólicas, Death Cab for Cutie não é exatamente a banda mais alegre do planeta. Mas, surpreendentemente, eu nunca fico triste ao ouvir. É um estado diferente, num espectro separado das euforias e tristezas arrebatadoras comuns.

Julho, eu ouço Death Cab for Cutie quando preciso de paz total. Existem momentos em que você precisa pensar claramente, momentos em que não adianta colocar uma música dançante pra fugir da própria cabeça e nem forçar um sofrimento teatral das grandes canções antigas. São horas raras bem no meio dos dias perdidos entre montanhas-russas de emoções fortes. A calma, a clareza, a mais absoluta suspensão de todo movimento real em mim. Longas viagens de ônibus, noites silenciosas, visitas ao meio do nada. Tudo isso consegue me provocar uma gritante necessidade de silêncio. É engraçado, mas só essa banda consegue me colocar em um estado de silêncio. Não sei exatamente o motivo. Talvez porque com ela eu consiga me desligar dos sons do mundo e me concentrar em uma letra metafórica e delicada, que me deixa alerta a todos os detalhes dentro de mim.

O que isso tem a ver com você? Bom, de certa forma, é isso que você me entrega, Julho. Os últimos meses foram de um movimento extremo, familiar e frenético. Uma loucura naturalizada? Sim, digamos que seja isso. Talvez eu possa ser metafórica pra tentar te explicar. Sou uma pessoa extremamente desorganizada. Minha casa, meu quarto, meu armário e minha bolsa, sou incapaz de manter tudo isso arrumado. No entanto, mesmo com roupas reviradas nos cabides, meus livros sempre foram milimetricamente organizados. É assim que eu vou vivendo, sem conseguir dar conta da vida inteira, mas precisando garantir que consigo ter total controle sobre pelo menos alguma coisa. Não consigo controlar tudo que gostaria em mim, mas posso circular entre minhas escolhas como se para garantir que deixei minhas barreiras maleáveis.

Eu precisava desse movimento, desse mergulho em algo que não é mais minha realidade, só pra ter certeza de que ainda é meu. De que eu ainda posso. A bagunça está cada vez maior, mas você chega ao fim e encaro o que te sucede com a paz total que acompanha toda e qualquer sessão de Death Cab for Cutie. Uma certa resignação, não diante da vida, mas sim diante do fato de que viver é abrir mão para encarar possibilidades que nem mesmo estavam ali.

Um estado de calma toma conta de mim. Talvez seja aquele mesmo que antecede uma tempestade, talvez seja só a certeza de algo que eu ainda não descobri. Agora te vejo ir e sei que só posso agradecer. Por ter sido especialmente bom comigo ao oferecer o silêncio e a imobilidade de que eu precisava ao mesmo tempo em que eu estava em completo movimento. Como será que nos encontraremos da próxima vez? Espero que bem, sempre bem. Sempre de alguma janela.