Desventuras em Série: A Tragicomédia – BEDA #22

O roteirista da minha vida foi demitido e quem assumiu as funções no mês de abril foi o estagiário. Digo isso de coração aberto, com a paz interior de quem já aceitou que tudo vai dar errado até essa maré passar. A questão é que desde o dia primeiro as coisas vêm dando errado pra mim e um inferno astral fora de época tomou conta dos meus dias. Não é exagero, quem me dera fosse.
Depois de vinte dias de dessabores, resolvi desencanar. Meu feriado tinha acabado e a semana acenava com a perspectiva de muito trabalho negligenciado pela frente. Senti na boca do estômago aquela vontade de não voltar pra São Paulo, mas fui forte o suficiente pra comprar minha passagem, desafiar o caos de uma cidade com sua principal via expressa interditada e encarar a rodoviária na segunda-feira à noite. A vida é bela, a coragem é o bem mais útil ao ser humano, tudo vai dar certo e… fui roubada. Vinte anos de Rio de Janeiro, umas passeadas por cidades mais cabreiras e finalmente levaram minha carteira. Gostaria de dizer que a dor maior foi pela honra malandra de quem se gabava de nunca ter sido roubada, mas o que doeu foi o dinheiro mesmo. Pior, o que doeu foi meu cartão do bandejão carregado que nem será de muita validade para o ladrão. Doeu também o ingresso do cinema que ia pra caixinha de recordações; mas acima de tudo o dinheiro.
Muito choro e estrada depois, cheguei a São Paulo e fui direto pra faculdade entregar o trabalho responsável pela minha volta. A essa altura vocês já devem prever que o professor não estava lá. É claro que ele faltou, eu devia ter imaginado. Respirei fundo, bebi uma água, dormi em uma aula. Tudo vai dar certo. Cheguei em casa e tentei ignorar o fato de que uma crise de coluna se aproximava. Todas as pessoas com quem eu falei me mandaram ser otimista pra atrair energias positivas. Vamos lá, Milena, é só uma questão de ponto de vista. Liguei o computador pra correr atrás dos documentos perdidos e tive a confirmação do que por muito tempo desconfiei: a vida é um eterno ciclo de zueras. O carregador simplesmente não funcionava. Perdas materiais, vocês estão por toda parte! Respirei fundo mais uma vez e pensei que tudo bem, pelo menos estou viva. Ao pensar isso, esqueci que não se deve dizer nada ao universo. Ele pode estar ouvindo.
Já questionei muitas vezes se a vida não é um video game, uma novela mexicana ou um seriado americano com risadas ao fundo. Hoje confirmei que realmente faço parte de uma dessas formas de entretenimento. Finalmente me encaminhei para o banco para pedir um novo cartão. A moça, muito simpática, disse que chegaria em cinco dias, não precisava me preocupar. A única coisa a fazer era atualizar meu endereço. Feliz da vida, imaginando o dia em que não mais teria que quebrar meu porquinho pra catar moedas (literalmente), passei meu endereço pra ela. Sorrisão no rosto, esperança crescendo, tudo vai dar certo. A moça me olha como quem tem uma notícia desagradável pra dar.
“Infelizmente não posso fazer essa alteração, dona Milena”.
“Por quê? Precisa de algum documento a mais?”, pergunto já preparada pra ficar na fila do Poupa Tempo.
“Não”, ela me olha como quem acabou de descobrir um inconveniente mínimo, como a falta do meu número de celular, “é que a senhora está falecida”.
“Oi?”
“É, aqui consta que a senhora morreu”, ela diz virando a tela do computador pra mim, onde meu nome está do lado das letras FALECIDA.
Não sei que tipo de reação é esperada em uma situação como essa. Era pra eu gritar? Era pra quebrar a agência e começar a procurar pelas câmeras escondidas? Claramente eu estava ou n’ O Show de Truman ou nas pegadinhas do Silvio Santos. Na dúvida, perguntei o que eu deveria fazer e, depois de ouvir a resposta educada da moça, saí com toda a dignidade que me restava e fui ter uma crise de riso no meio da rua. Eu ri até o ponto de ônibus, no ponto de ônibus, todo o percurso que fiz no ônibus e dentro do consultório da minha dentista. Fui obrigada a contar a história pra ela e ficamos as duas rindo juntas ao invés de efetivamente cuidar dos meus dentes. 
Lembrei de um dia muito azarado que a Larie teve e que acabou virando post, com direito a Jake Bugg no título. Coloquei a música pra tocar nos fones de ouvido e decidi que estava na hora de me divertir com minha própria tragédia. Acontece que o síndico do prédio onde eu morava e eu tivemos sempre uma relação arrebatadora de ódio. Quando os Correios foram entregar alguma correspondência do banco depois da minha mudança, ele teve a felicidade clandestina de informar que infelizmente, a dona Milena faleceu. Pois é, muito triste. Imagino as palavras que ele escolheu pra comunicar minha pretensa morte, algo que desconfio que ele sempre desejou realizar com as próprias mãos. Aumentei o volume e cantei mentalmente que I swear to god I’ve seen it all. Nothing shocks me any more after tonight. Confesso que não me aguentei e ri o percurso de volta inteiro. Um cara no ônibus achou que eu estava sorrindo pra ele e quis retribuir. Desculpe, amigo, o único flerte que me sinto capacitada para realizar é com a comédia. O estagiário queria O Show de Truman, mas o que tem pra hoje é Friends.
A reação das minhas amigas ilustra bem meu estado de espírito