Pausa para a metalinguagem

Meu primeiro blog foi criado em algum momento entre 2004 e 2005 e durou aproximadamente três horas. Durante todos os anos que me separam desse passado distante, sempre fui grata à Milena mais nova por saber que a existência de tal blog me traria muita vergonha dez anos depois e decidir me poupar da situação. Foram três horas intensas. Entre a escolha evidentemente equivocada do nome e o momento em que percebi ser o botão de exclusão minha melhor alternativa, fiz cerca de cinco posts de duas frases cada. Infelizmente, o conteúdo deles sempre será um mistério mesmo para mim.


Depois do Blog-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado vieram inúmeras tentativas, a mais bem sucedida delas quando eu tinha por volta de treze anos. O nome ainda era horrível e até mesmo auto-ofensivo, mas pelo menos era um diário virtual com textos de verdade, ainda que eu não consiga decifrar como conseguia transformar a rotina da época em algo um pouco interessante. Mas como todo bom pokemón blogueiro, evoluí para um mínimo de linha editorial, apenas o necessário para excluir textos sobre discussões em família ou sobre minha crush da vez que muito provavelmente não me dava a mínima bola. Ainda costumo descrever esse último blog como uma bagunça (e era), mas acabo lembrando o quanto ele foi responsável pelo meu hábito de escrita ao longo do ensino médio e fico grata.


Quatro anos depois da exclusão impiedosa do Listras Coloridas e da insistência em compartilhar, através do Agora Moro na Lua, assuntos pessoais e opiniões que ninguém pediu, me peguei novamente pensando no sentido disso tudo. Por que diabos eu faço isso? Em tempos de blogs de moda, decoração e afins, o que eu posso ter a dizer que alguém queira ouvir? Sim, alguém precisa querer ouvir, caso contrário não faria diferença escrever em um dos vários cadernos que superlotam minha gaveta da escrivaninha. Hoje cheguei à conclusão de que, na grande ordem das coisas e segundo o alinhamento dos planetas, a resposta é nada. Posso ter muito a dizer, mas cada pessoa que me lê viveria a mesma vida caso não se deparasse com um texto meu ocasionalmente.

Posso ter centenas de justificativas pessoais para a existência desse blog, mas a verdade é que, isoladamente, vocês não têm. E é assim que se define uma coisa chamada comunidade. Ninguém precisa saber o que eu achei do primeiro livro do Ian McEwan que li e ninguém vai me pagar para contar. Por mais que eu já amasse ler os textos da Analu sobre Teatro antes de conhecê-la, se ela decidisse parar de escrevê-los, eu não sentiria que o eixo da Terra deslocou nenhum centímetro. Ainda que eu aplaudisse os textos da Anna Vitória e mandasse por email para as amigas mais próximas, caso ela tivesse desistido de escrever para ser bióloga lá nos idos de 2009, a situação política do mundo não seria muito diferente. Se eu tivesse desencanado dessa coisa de blog ainda em 2004, todos nós estaríamos vivendo vidas muito parecidas com as que de fato vivemos, exceto pelo fato de que talvez eu tivesse dado uma chance para a matemática e hoje quem sabe seria uma engenheira com um extrato bancário menos vazio. Quando as pessoas dizem que blog agora é uma maneira de ganhar dinheiro e que só quem tem mais de dez mil curtidas do Facebook sabe o que está fazendo, elas deduzem que um blog é algo que deve mover montanhas, sejam elas de acessos ou de jabás.

O que é um blog pessoal no meio disso tudo? Pode ser um diário, se a pessoa realmente quiser. Pode ser um exercício de escrita. Pode até ser um modo de compartilhar sua vida com quem mora longe, como acontece hoje com as amigas que fiz através disso aqui. Mas um blog é, antes de tudo, uma parcela de uma comunidade bem maior. Isoladamente ele perde grande parte do sentido. Por enquanto, ninguém aqui é o Antonio Prata e essa é parte da mágica. Dentro da blogosfera é possível errar, pesar na mão, falar sobre um assunto pouco interessante e, melhor ainda, aprender a torná-lo interessante. Aqui tem um monte de gente real que (olha que louco!) lê o que você passa horas escrevendo e ainda te diz o que pensou. Dá opinião sobre como você falou e sempre mostra um lado da coisa que você não tinha visto. Você não cria o texto sozinho, você rascunha e espera alguém vir completar embaixo. Depois do primeiro comentário, você já pode acabar mudando de ideia e descobrindo um ponto de vista que jamais teria encontrado sozinho. Isso é comunidade. Não são pessoas que simplesmente admiram o seu trabalho, são pessoas que criticam e completam o seu trabalho de um jeito que acaba resultando em algo melhor.

Ontem vi o mesmo Antonio Prata dizer que crônica é um gênero ficcional e que todo blogueiro é um cronista. De crônica ele entende, mas tive que discordar um pouco. Todo blogueiro é um pouco cronista, mas ele nunca é só isso. Ele pode ser o início ou o meio de uma crônica, pode ser um contista ou uma pessoa engraçada que entende muito de música. Blogueiro é alguém que se dispõe à troca e coloca a própria experiência como moeda. Talvez não tenhamos milhares de acessos diários e nem viagens patrocinadas, mas a maioria de nós sequer pensou nisso quanto decidiu sentar e escrever na esperança de que do outro lado alguém fosse ler. Por isso ainda lemos uns aos outros.

Cronistas lidos por milhares de pessoas não podem se dar ao luxo de ler a caixa de comentários inteira, até porque o nível de chorume nessas é impressionante.  Numa época em que “Não leia os comentários” é uma regra absoluta da internet, percebo o quanto sou sortuda de ter vinte, dez ou até dois comentários nos meus textos. Cada um deles é valioso e me ensina muito sobre como escrever melhor e como ser uma pessoa melhor. Ensina, por exemplo, da necessidade de visitar a outra pessoa e ler o que ela tem a dizer. Nem todo blogueiro é um cronista e nem todo blogueiro é só cronista, mas todo blogueiro é, sem dúvidas, um leitor. Eu não trocaria isso nem pela quantidade de acessos do Antonio Prata.

De Repente 30 foi um filme sábio

Infelizmente não consegui participar do Blog Day, mas fiquei muito feliz de ver tantas indicações de ótimos blogs pipocarem por aí e já criei uma lista de todos que quero começar a acompanhar. Adorei as indicações que recebi (Analu, Anna e André), obrigada, pessoas fofas. O Blog Day me fez pensar muito na blogosfera de hoje e como ela é diferente de quando começou. Por isso vou deixar um pedido para os leitores fantasmas: comentem e se apresentem! Me deixem saber quem vocês são e se concordam ou discordam de tudo que eu falo. Muitos de vocês também escrevem e eu vou adorar ler. Se você lê e não tem um blog, fale mesmo assim. Com certeza você também tem algo a dizer. Vamos aderir ao #voltamundoblogueiro e continuar a conversa até não poder mais.