Pequenas notas quase críticas: o que andei lendo

Em algum momento desenvolvi o costume de fazer anotações sobre o que estava lendo, assim como em algum momento mais recente acabei ficando preguiçosa pra fazer isso com coisas que lia por prazer, não para a faculdade. Felizmente, enquanto escrevia pro Amásia, descobri que aprendia muito mais sobre cada livro quando falava sobre ele e não deixava que ele se perdesse na bagunça da minha memória. 
Infelizmente ainda não tenho os recursos técnicos que me permitam perder a vergonha e começar um canal literário no Youtube. Também não pretendo transformar o blog em uma sucessão de resenhas, porque o objetivo dele nunca foi esse. Mas de vez em quando gosto de deixar registrado por aqui o que andei lendo. Como nem tudo rende uma longa resenha, resolvi adaptar a ideia dos Filminhos da Vez, que já é famosa lá no blog da Anna, e falar de vez em quando sobre o que andei lendo. A Maratona Literária 3.0 aconteceu na última semana de julho e eu consegui ler quase minha meta inteira. O que li nesse período e desde então, tirando algumas exceções, foi bem mediano. 
Os Videntes – Libba Bray (Editora iD, 567 páginas)
Quando você lê um livro de quase 600 páginas até o fim, acaba tendo muito o que dizer sobre ele. Os Videntes é cheio de nuances e esse é seu elemento mais positivo e ao mesmo tempo o mais fraco. Trata-se de um YA de época, uma espécie de romance histórico, com uma veia sobrenatural muito forte. Como YA ele é sólido, até o eventual triângulo amoroso que surge não é terrível, a protagonista convence como uma garota de 16 anos vivendo nos anos 20.  Como romance histórico ele é ainda melhor. A pesquisa feita pela Libba Bray foi muito boa e ela recria a atmosfera da época muito bem, faz um apanhado da história americana que tem relação direta com o enredo e o resultado é ótimo. A linguagem foi a única coisa um pouco forçada no quesito época e as gírias datadas começaram a irritar em algum ponto. Não costumo gostar de nada sobrenatural, mas os sustos que dona Bray me proporcionou foram muito bem vindos e bati palmas para a relação deles com fanatismo religioso e misoginia. No entanto, por ser o primeiro de uma série, ele tenta explicar muita coisa e preparar muitas pontas soltas a serem desenvolvidas nas sequências, o que acaba tirando muito do ritmo e deixando longas passagens desnecessárias. Ainda assim, pretendo acompanhar a série e ver no que dá.
A elegância do ouriço – Muriel Barbery (Companhia das Letras, 352 páginas)
Esse é o tipo de livro que me dá muita dor de cabeça. Literalmente. Fico tão cansada entre o gostar muito e o jogar pela janela que começo a procurar a neosaldina pra ver se ajuda. A proposta dele é contar a vida e a solidão existentes em um prédio luxuoso de Paris. A narração é dividida entre Paloma, uma menina de 12 anos filha de uma das famílias ricas que moram lá, e Renée, a zeladora que já está na casa dos 50 anos e nunca teve uma educação formal. Ambas são geniais, sendo Paloma uma criança super dotada que esconde da família sua inteligência. Boa parte do livro é preenchida pelas reflexões de Paloma e Renée, que só se conhecem pra valer já quase no fim. A grande questão é que o livro é pretensioso demais. Demais mesmo. A elevada sensibilidade das narradoras é turvada pela personalidade delas, sempre julgando todos ao seu redor e se colocando muito acima deles. Paloma nunca convenceria como uma criança de 12 anos, mesmo super dotada. A voz dela nunca é dela, mas sim a da autora tentando criar uma criança, sua revolta em momento nenhum é justificada, diferente da de Renée. O enredo é uma grande desculpa para as reflexões pouco convincentes das duas. Alguns momentos, entretanto, conseguem alcançar o ideal de beleza ao qual as duas aspiram. Renée também é uma das ótimas partes desse livro (por que não dizer logo?) enfadonho.
A invenção das asas – Sue Monk Kidd (Paralela, 328 páginas)
Esse é um daqueles livros que você só quer abraçar. Outro romance histórico, dessa vez provando que eu não deveria desgostar tanto do gênero, A invenção das asas acompanha Encrenca e Sarah desde a infância até um estágio mais avançado da vida adulta. É o século XIX, Encrenca é uma escrava e Sarah é a filha que não se encaixa na própria família escravocrata. A pesquisa história de Monk Kidd é muito boa e se equilibra perfeitamente com os elementos inventados da história. Não sei até que ponto devo aplaudir uma história sobre escravidão sendo contada por uma autora branca, mesmo que com uma boa base teórica. Mas com certeza devo aplaudir de pé uma história sobre mulheres em busca de liberdade contada por uma autora mulher. A frustração de todas as personagens diante de suas possibilidades limitadas é arrebatadora e cruel, a relação delas com seus desejos pessoais, suas famílias e o papel esperado delas é real e muito bem delineado. É um livro necessário e justo quando o assunto é representação feminina, sem deixar de lado uma prosa agradável.
Reprodução – Bernardo Carvalho (Companhia das Letras, 167 páginas)
Aqui temos o topo da minha lista de decepções. Quis muito ler esse livro, já que anunciava um protagonista que nada mais era do que uma ironização extrema dos comentaristas de internet reacionários e cheios de ódio. Bom, o protagonista é isso mesmo. A reprodução está lá, nas suas mais diversas formas: biológica, informacional, comportamental. Os mal entendidos também estão lá, bem claros. A questão é que tudo isso foi muito mal misturado. O enredo é fraco, a narrativa é cansativa e poderia ter sido salva se o enredo não fosse tão fraco. A sensação final é a de que o autor queria uma justificativa pra colocar os significados variados de reprodução em algum lugar, então decidiu enfeitar com um livro cheio de monólogos que deveriam ser estilisticamente ousados. Poderia ter sido muito bom, mas foi muito meia-boca. Espero melhores experiências com Bernardo Carvalho no futuro, porque tenho muita simpatia pela literatura brasileira contemporânea.
Não sei se esse tipo de comentário será frequente por aqui, mas quem sabe assim eu lembro de comentar o que eu leio, né?