Manifesto a favor do entusiasmo – BEDA #23

As pessoas com quem eu mais me identifico são aquelas que se animam muito com alguma coisa. Não precisa ser o rei da motivação, mas gosto de estar cercada de pessoas que não sentem vergonha de se importar com as coisas. Outro dia uma amiga cogitou fazer aulas em algum desses cursos a distância porque não estava entusiasmada com o semestre que teria pela frente e sente necessidade de se envolver realmente com pelo menos uma de suas atividades. Enquanto eu abria meu coração confidenciando que já tinha passado horas da minha vida vendo vídeo-aulas do Coursera e efetivamente lendo o que foi passado, sentia crescer ainda mais meu carinho pela minha amiga.
É muito fácil não se importar com nada. Não exige nenhum esforço e as circunstâncias te levam a isso. O lado cruel dessa postura é que ela toma conta da sua vida, quando você percebe está emanando negatividade. Eu acho importante criticar coisas que devem ser criticadas. Eu, por exemplo, vivo sendo a chata dos meus amigos e familiares quando o tópico é problemático; é ótimo, no entanto, saber que minha personalidade não é definida só pelas coisas que me incomodam. Eu detesto ketchup, tenho uma preguiça infinita da língua francesa, não gosto do Lars von Trier e não tenho nenhum interesse em video games. Entretanto, não encontro felicidade em falar mal sobre esses assuntos incessantemente. Com tantas coisas no mundo que não fazem a minha cabeça, prefiro focar nas que eu gosto.
Gostar é um verbo quase proibido hoje em dia. Cogito a possibilidade de as pessoas, quando ouvem a frase “Eu gosto de X”, automaticamente ligarem o falante à falta de senso crítico. Como assim ele não vê os mil e um defeitos de X? Como ele pode achar X algo proveitoso, sendo que X não é inteligente/cult/inovador/refinado suficiente? Acontece que é permitido se interessar por diferentes assuntos, se divertir com livros, filmes, programas de TV, música e por aí vai. O tipo de cultura e/ou entretenimento com o qual você se envolve não define quem você é, mas acredito que a maneira pela qual você lida com isso sim. Se você luta contra o que te comove (de alguma forma), deve ser uma batalha diária viver dentro da sua cabeça. Se você se desculpa pelos seus gostos, seu lazer deve ser bem pouco divertido. Eu já fiz tudo isso, mas me descobri muito mais realizada e motivada quando aceitei meu lado entusiasta. Não quero ter uma lista de filmes franceses obscuros como favoritos só pra sentir que sou uma pessoa profunda. Meus filmes favoritos não definem quem eu sou, mas minha capacidade de refletir sobre qualquer filme que eu vejo sim.
Parks & Recreation é uma série que comecei a ver esse ano e já é uma das minhas preferidas. Nela, o desenvolvimento dos personagens gira muito ao redor da capacidade de se importar. É essa a característica que me faz amar a série. Em alguma medida, todos os personagens tem algum elemento pelo qual são apaixonados, seja ele o trabalho, o relacionamento amoroso, o próprio estilo ou até mesmo a Mercedes que possuem. Alguns deles justamente fazem o caminho do “I don’t give a damm” para o “I care so much I can’t admit it”. Chris Traeger, possivelmente meu personagem favorito, é um exagero ao limite da passion-driven person. Ele fala “This is LITERALLY the best thing ever” pra tudo, se recusa a encarar os sentimentos negativos que tem e é a imagem do chato motivacional. Ainda assim, gostaria de ser amiga dele.
Não é possível gostar de tudo, tampouco seria saudável. Não é preciso fechar os olhos pras características que te incomodam em alguma coisa. Você pode se expressar a respeito disso o quanto quiser. Mas é tão mais produtivo e agradável focar no que te gera alegria. Não é necessário ser um Chris Traeger em carne e osso, mas a vida fica bem mais leve quando você se permite envolvimento e entusiasmo. Caso sua lista de filmes favoritos contenha apenas filmes franceses obscuros, com certeza várias pessoas vão querer te ouvir falar sobre o quanto eles são incríveis. Não precisa se restringir a falar mal de todo o resto. Não precisa se esforçar pra ver tudo de maneira negativa. Você não será uma pessoa pior caso goste muito de alguma coisa. Até mesmo se o que te provoca alegria for usar Comic Sans, libere essa sua paixão e abrace o lado não-caga-regra da vida.
He is literally my hero
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