Quem sabe no ano que vem

Pensem em todos os filmes brasileiros sobre adolescência que vocês viram. Eu, pelo menos, nunca me vi em nenhum deles. Minha adolescência foi muito distante de viagens para a praia com a turma do colégio e todo um burburinho sobre quem ia ser a escolhida do garoto mais bonito da escola. Pra falar a verdade, na minha escola as pessoas eram bem mais realistas e nenhum dos meninos era o equivalente adolescente de um deus grego. O mais cinematográfico que aconteceu lá foi quando alguém teve a brilhante ideia de gravar uma conversa telefônica para “desmarcarar” um menino. E, justiça seja feita, depois todo mundo comentou o quanto aquilo foi dramático. 
Eu sempre gostei de ler e ver coisas sobre adolescentes. Talvez porque meu grande objetivo quando criança era ter 16 anos. Hoje em dia, quando ainda não estou tão distante assim da adolescência, ainda percebo uma preferência sentimental. Mas continuava me torturando por não me conectar tanto com obras nacionais quanto com determinadas gringas de mesma temática. Sempre senti, vendo filmes como “As melhores coisas do mundo”, que aquilo dizia muito sobre um determinado nicho que eu nunca conheci de perto. Além disso, em tudo ficava a impressão de adultos tentando recordar com um olhar até saudoso, mas sempre condescendente, uma época da qual só sobrou uma lembrança vaga.
“Para quando formos melhores”, romance de Celeste Antunes que eu peguei pra ler por um impulso, ainda é focado em um nicho bem específico, não se enganem. Mas em nenhum momento a narrativa e os personagens nos deixam esquecer que eles sabem muito bem o quanto são privilegiados por pertencerem a classes abastadas de São Paulo. Ainda estão bem distantes de mim, com 15 anos estudando em um bairro do Rio de Janeiro que seria completamente esquecido não fosse por aquela música do Jorge Ben Jor, mas alguma coisa nos conectou.
O livro começa acompanhando Sara, Fran, Lucas, Miguel e Teo. O grupo de amigos não tem nada demais, nada sensacional está a ponto de acontecer na vida deles, mas você começa a se importar com eles. Sutilmente o foco vai mudando para Miguel, talvez o mais atormentado deles. Durante as quase cem páginas vemos uma representação da sensação de ser adolescente sem a tentativa de diminuir o que isso significa pra quem ainda está vivendo a fase. É isso que mais me surpreendeu e que melhor criou um laço com a história. 
Nunca entendi bem o motivo de algumas pessoas reservarem um olhar tão redutor a essa fase da vida, como se por ser jovem fosse impossível ser também complexo. Ou ainda pior, como se jovens fossem incapazes de entender algo complexo. Essa abordagem sempre me pareceu fruto de uma insegurança muito grande dentro da própria maturidade, como se ela fosse quebrar a qualquer momento caso a validade dos outros não fosse posta em xeque. Os personagens de “Para quando formos melhores” jogam fora essa redução e, em meio a muitos diálogos espirituosos e coisas não ditas, passam a sensação exata de ter certeza que você ainda não é uma pessoa completa e o desejo de ser. O engraçado é que justamente essa certeza (e toda a falta de outras certezas) é o que os torna tão legítimos. 
Em alguns trechos dei de cara comigo mesma, cheia de dúvidas e sentimentos novos, mas com vontade de abraçar o mundo. E, claro, certa de que eu conseguiria. Lembrei do tamanho da confiança que eu tinha no meu eu futuro, aquele de quando eu fosse melhor. Alguém mais corajoso, confiante e talentoso. Alguns dos personagens da Celeste Antunes parecem esperar o dia em que acordarão sendo essa nova pessoa que provavelmente merecerá mais o que de bom pode acontecer na vida. A vontade final foi entrar nas páginas e abraçar cada um deles, depois dizer: não esperem tanto. 
“eu tenho claustrofobia quando ando de táxi. quanto mais eu cresço, mais claustrofóbica eu fico. acho que estou ficando grande demais pros lugares.”
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