Monotemática

Há quem diga que só a crise de meia-idade é válida. Crise existencial arte, crise existencial moleque. Uma ruga aqui, um neto crescendo ali e você talvez tenha seu ímpeto de buscar a juventude perdida justificado. Também existem os que defendem Friends como a primeira mídia a tratar das ansiedades e tumultos que regem a vida dos jovens de vinte e poucos anos. Tudo começou quando a Monica citou essa coisa assustadora e etérea chamada “mundo real”. O que é isso que eu nunca vi? Há quem ache isso tudo uma frescura sem tamanho. E, é claro, tem quem considere isso uma grande jogada da indústria do entretenimento para lucrar mais através da identificação de determinada geração pertencente à classe média. Já eu gosto mesmo é de dar umas risadas, de preferência de mim mesma.
Tudo indica que eu sou chegada numa crise existencial. É provável que aos dez anos eu já passasse noites insone me questionando sobre as razões para ir à escola no dia seguinte e se algum dia a vida seria mais do que planos mirabolantes para escapar da Educação Física. A adolescência foi o paraíso do quem sou eu e o que estou fazendo aqui. O terceiro ano do Ensino Médio, meus familiares e amigos podem atestar, foi um grande teste vocacional. A cada semana eu chegava com um novo “Descobri o que eu vou colocar no vestibular”. Passei de bacharelado em Artes numa cidadezinha de Minas Gerais a História em Niterói. Acabei em Relações Internacionais. O que prova que coerência nunca foi um dos meus atributos, tanto que alguns choros e questionamentos depois, estou fazendo algo totalmente diferente. Isso tudo pra dizer: vivo num estado de caos constante. Começo e largo atividades o tempo todo, carrego algumas dúvidas impossíveis de sanar e tudo bem. Nada demais quando você aprende a conviver com isso.
De uns tempos pra cá aumentou consideravelmente o número de histórias que giram em torno da chamada “20 something crisis”. Não por acaso, grande parte das histórias pelas quais eu venho me interessando são desse tipo. Ainda menos por acaso, o primeiro filme ao qual assisti esse ano tem o título explícito de “Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida”. Desde que me deparei com a sinopse e o trailer do filme do Matheus Souza em 2012, durante uma fase em que somente o nome desse filme serviria como uma biografia infalível, nutri uma obsessão por ver a Clarice Falcão perdida na vida ao som de “Se eu corro”.

*cries internally*
Não tem uma grande motivação artística, tampouco pretendo escrever teses sobre isso. Apenas me senti menos sozinha no mundo quando convidei os amigos para me acompanharem ao cinema e eles, ao descobrirem o nome do filme, reagiram todos com identificação. As variações entre o “Não posso ver porque vai que eu me mato” e o “Eu fiz um filme e não sei” me ajudaram a dormir melhor. O engraçado é que, assim que o filme acabou e começamos a andar de novo pela rua, concordamos que as coisas estavam diferentes. Ainda não tínhamos estágios, muito menos empregos bacanas; o amor da nossa vida talvez não existisse; a faculdade ainda duraria alguns anos mais do que o planejado. Ainda não fazíamos a menor ideia do que estávamos fazendo com a nossa vida, mas pelo menos o problema não estava mais no singular.

Não é de hoje que eu me pergunto se estou vivendo certo e o John Mayer não me deixa mentir. Um dos meus filmes preferidos de 2013 foi Frances Ha, e não foi só pelo cabelo desgrenhado em tempo integral e o vício em vestido com legging. Também não é por acaso que eu tive uma fase Greta Gerwig. A menina gosta de interpretar personagens problemáticos, seja a depressiva em Damsels in Distress ou a que não sabe mais o que quer da vida  depois de ser abandonada pelo noivo em Lola Versus. Eu gosto de ver histórias e pessoas que não tem a menor ideia do que estão fazendo com a vida, mas que sabem fazer piada com isso. Sejam eles fictícios ou não. Já é bem complicado decidir como entrar na vida adulta pra valer, ser uma pessoa responsável, vestir menos camisetas e arrumar um emprego que não faça você querer raspar a cabeça e fugir para o interior do Amapá. Não preciso viver achando que eu sou a única que se sente assim, muito menos levando tudo a sério demais.
É provável que essa incerteza nunca acabe. Vivi comigo mesma tempo suficiente para saber que mesmo quando as dúvidas de agora parecerem bobas, vou encontrar um motivo bom o suficiente para ficar acordada até mais tarde em noites de sono valioso. Até me acostumei com a ideia e comecei a acalentá-la. Talvez eu pare de chamar de “crise” e comece a chamar de, sei lá, existência. “Não tenho dormido bem. Sabe como é, a existência me deixa acordada uma vez ou outra”.  Só espero que durante toda a minha vida seja aceitável ver e rever Reality Bites, admirando a simples presença do Ethan Hawke novinho e fingindo que sou tão legal quanto a Winona Rider tendo ataques de ansiedade. 

Honey, the only thing you have to be by the age of 23 is yourself