Crônica de uma derrota anunciada

No dia em que eu decidi entrar nessa loucura, comemorei o cancelamento dos compromissos do dia seguinte e esperei ansiosamente a chegada da meia noite. Eu sabia que perderia. Contei a todos os amigos e até a minha mãe porque me disseram que era importante que as pessoas soubessem e me pressionassem para que eu fosse até o fim, mas eu já sabia qual era o meu destino. Não havia vitória possível.
O NaNoWriMo – National Novel Writing Month – consiste na tentativa de escrever um livro de cinquenta mil palavras no mês de novembro. Acontece todo ano e reúne pessoas do mundo inteiro que se encontram em fóruns, chats e até em write ins que saem da internet e ocupam algum espaço lotado de tomadas e cafeína na vida real. Uma insensatez completa, claro. Afinal, o que de bom pode ser escrito em apenas um mês? É isso que você provavelmente está pensando, caso nunca tenha ouvido falar do NaNo. Foi isso que eu também pensei quando ouvi falar pela primeira vez.
Acontece que eu gosto de uma loucura divertida e ano passado, pela primeira vez, resolvi participar. O resultado foi um arquivo com pouco mais de três mil palavras que não se conectavam de maneira alguma. Escrevia algumas centenas de palavras por dia e só quando sentia a chegada daquela que ocupa o imaginário de todo mundo que nutre alguma relação com a escrita, aquilo que se materializa nos nossos sonhos como um tesouro sagrado e dourado. A inspiração. Sem que ninguém soubesse, sem que nenhum dos meus amigos se interessasse pelo projeto, decidi ver qual era a do NaNo e falhei miseravelmente. Como previsto.
Passei o ano inteiro sem sequer abrir o arquivo que resultou da minha primeira incursão pelo mundo nada maravilhoso, mas deliciosamente complexo, da escrita. Até que o burburinho que antecede o dia 1º de novembro começou a pipocar pela internet – no twitter, em vários dos grupos que eu participo no facebook e, pasmem, descobri que dessa vez duas amigas minhas participariam também. Simples assim, decidi participar de novo.
Vejam bem, se essa for a primeira vez que você acessa esse blog, uma rápida olhada pelo arquivo ali do lado te fará entender que eu não sei nada sobre escrever periodicamente. Caso você já conheça bem a frequência com a qual eu escrevo aqui, bom, você sabe bem que eu não sou a pessoa indicada para escrever mais de mil e quinhentas palavras por dia, durante trinta dias. Mas eu decidi tentar, mesmo com apenas uma ideia vaga sobre o que escreveria. 
Quando eu soube que poderia virar a madrugada sem peso na consciência, esperei com os dedos a postos e as ideias a mil pela chegada da meia-noite do dia 1º.  Comecei no meio de um parágrafo e não lembro de ter respirado pelos vinte minutos seguintes. Antes de dormir, às duas da manhã, já tinha batido a meta de palavras do dia. E assim foram os primeiros dias, com a ajuda de muitas Word Wars no chat do NaNo Brasil com pessoas que eu não fazia ideia de quem eram, mas que estavam no mesmo desespero que eu, ou com a Lorena, que insistiu até o fim para que eu não desistisse. Não foi fácil, também não diria que foi divertido. Minha enxaqueca atacava e a inspiração, aquela grande manic pixie dream girl, nunca apareceu. Eu queria dormir, comer fora e ver Doctor Who, mas precisava encarar as páginas em branco tentando dar vida a personagens que não existiam alguns dias antes.
Doze dias depois eu simplesmente parei. A faculdade começou a dar indícios de que não se resolveria sozinha e eu nem sequer tentei levar minha história pra frente. Depois de algumas aulas na Letras você aprende a cultivar uma auto-crítica paralisante. Não foi nenhuma surpresa, certo? Eu sabia desde o início que não poderia chegar às cinquenta mil palavras. Porém, estranhamente, até aquele dia doze eu tinha sentido algo muito diferente da derrota. Cada vez que eu ia dormir com a meta do dia cumprida ou quando encarava aquelas páginas preenchidas com – veja só! – palavras, sentia uma vitória muito maior do que qualquer outra coisa poderia me proporcionar. 
O NaNoWriMo é isso. Não é sobre escrever uma obra-prima em um mês, não é sequer sobre escrever qualquer coisa publicável em um mês. É sobre escrever. Simples assim. Não é fácil sentar todo dia, no mesmo horário, na frente da mesma tela branca, e escrever alguma coisa. Mas é possível. A inspiração, como bem disse Malinda Lo em uma das muitas e bastante úteis pep talks oferecidas pelo NaNo, não faz muita diferença. A disciplina é muito mais relevante, mesmo que pareça menos sedutora. Isso eu poderia ter aprendido em qualquer uma das muitas aulas que a faculdade me oferece, mas não teria a mesma graça. E eu definitivamente não teria as dezessete mil duzentas e trinta e três palavras (TRINTA E SETE PÁGINAS!!!!) que comprovam que a minha derrota foi bastante proveitosa.
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