Psicologia do mermo

Antonio Prata, em uma crônica deliciosa chamada “Choque de Civilizações”, ilustra algumas diferenças culturais que vêm chamando minha atenção desde que trouxe minha mentalidade carioca para morar em São Paulo. A verdade é que os menos de 450 km que separam essas duas cidades escondem algum tipo de portal bidimensional que torna as diferenças entre cariocas e paulistas um pouco mais lógicas. Mas Antonio Prata concentrou-se nas variações linguísticas e eu, como boa estudante de Letras e representante desse povo tão mal interpretado que habita terras quentes e praianas, devo responder à pergunta proposta por ele: por que diabos carioca troca o S por R e fala “mermo”?
Antes de mais nada, preciso esclarecer que o mermo é muito mais sutil do que parece. Talvez pelo escândalo que ouvir algo tão transgressor causa, mas a lenda do mermo é maior do que ele em si. Ninguém fala merrrrrrrrrrrrrrrrmo, com 493 érres aí no meio. É um só, rápido e pouco perceptível. Tanto que diversas vezes ele é substituído por seu primo suburbano, o “memo”, variedade preferida e mais utilizada por essa que vos escreve. 
Isso torna minha teoria possível. O mermo e suas variantes só existem graças a uma característica latente do carioca: nós queremos mesmo é evitar a fadiga. A preguiça nos persegue incessantemente, mas não podemos ceder a ela quando o assunto é trabalho, estudo, vida social ou familiar. Nossa cidade é também frenética e não nos concede a possibilidade de dormir após o almoço. Nossa preguiça é massacrada e jogada para o sonho do feriado na orla, regado à mate de praia e biscoito Globo. Mas somos também seres subversivos e, por isso, manifestamos nossa resistência em atividades simples como o boicote ao S.
Imagine só: você está em pé dentro do ônibus lotado, preso em um engarrafamento na Presidente Vargas. A sensação térmica já ultrapassou os 40 graus há muito tempo. Seu chefe é um imbecil e seu humor já está antecipadamente ruim porque você descobriu que passará o sábado trabalhando, não no piquenique na Quinta da Boa Vista, como havia planejado. Hoje sequer sobrará dinheiro para um lanchinho na Confeitaria Colombo. Ainda esperam que você tenha o trabalho de pronunciar o S? No meio da palavra, quando você está cansadíssimo, de boca aberta para que o E possa ser ouvido, esperam que você a feche novamente? Seria ultrajante. Seria se render. E seria um tremendo desperdício, já que no próximo M você fechará a boca de qualquer maneira. 
O mermo é uma bandeira de resistência. É a negação a todos os desmandos. É, ainda por cima, uma referência. Aquele R fora de contexto que teimam pronunciar nada mais é do que a nostalgia da palavra mais libertadora da língua portuguesa. Palavra que os cariocas insistem em reivindicar para o próprio sotaque, alegando não produzir o mesmo efeito sem nosso R injustamente chamado de escarrado. Ao sustentarmos que “é mermo”, queremos que o resto do mundo perceba que tudo que queríamos era abraçar nossa preguiça e mandar tudo à merrrrrrrrda. 
O Profeta Gentileza apoia o uso indiscriminado do R
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