Overthinking e outros surtos rotineiros

A vida é cheia de problemas. Na maioria das vezes eu sinto como se estivesse tentando tapar os buracos de um barco que está completamente furado, e a cada um que eu consigo, surgem mais uns três novos e maiores e fazem o desespero aumentar e a água entrar cada vez mais rápido. Isso é porque a minha cabeça funciona no modo autodestruição. Não gosto de admitir isso pra ninguém além da minha maior confidente porque o resto do mundo tem a estranha mania de fingir ser mental e emocionalmente saudável o tempo todo. A verdade, porém, é que eu passo quase todas as horas do meu dia analisando tudo e qualquer coisa, enxergando uma versão melhor de mim que não existe e dificilmente existirá. 
Por isso, eu tendo a valorizar um dia feliz. É claro que eu tenho muitos dias felizes, já que apesar de ter um cérebro meio hiperativo eu ainda não fui diagnosticada com o mesmo problema da protagonista de The Bell Jar. Eu tenho vários dias felizes, dias normais e dias em que eu apenas deveria ser grata por ter a vida que eu tenho, mas geralmente a análise exagerada de tudo atrapalha minha percepção. Quando acontece um dia perfeito, um dia em que eu não consigo arranjar tempo pra ouvir o que o meu cérebro me fala porque estou ocupada rindo, eu valorizo até o último segundo de consciência antes de cair no sono. 
Mas a vida, é claro, é cheia de problemas e, por mais que eu saiba disso, me desespero quando me pego no meio de um dia apenas normal. A sensação é a de que algo está muito errado, porque esse deveria ser mais um dia perfeito, não? Nessas horas, quando você é mais egoísta, infantil, impaciente e, vamos encarar, problemático, é que a vida ri da sua cara. A vida, que é cheia de problemas e mais parece digna de comparações ridículas a barcos furados. Ela ri porque justamente no momento em que você sente que o lado supostamente racional está vencendo a guerra, te convencendo com argumentos forjados de que algo TEM QUE ESTAR muito errado, quando o barco já está quase coberto de água, você é obrigado a ver sua idiotice. E logo por quem? Por aquelas pessoas que você só tem porque a vida te deu. 
Lá está você – no caso, eu – surtando sobre absolutamente nada concreto. Contando seus motivos ridículos para não ter a leveza necessária à sobrevivência sã, pedindo por palavras de estímulo, quando ao invés de uma única palavra você recebe uma lição de vida melhor do que aquelas que tentaram passar pra gente esse tempo todo. Você quer um motivo pra levantar amanhã e fazer tudo o que a rotina e a vida te exigem? Que tal todas as coisas que você quer fazer, todos os lugares aonde você quer ir, todas as pessoas que você ainda não conheceu? Se não for suficiente, quem sabe o fato de você estar no lugar aonde escolheu estar, vivendo a vida que escolheu viver? E com certeza pode ajudar saber que todo o resto do mundo está nesse exato momento procurando pelos mesmos motivos pra fazer tornar possível acordar amanhã e fazer as mesmas coisas que você. 
A vida é cheia de problemas, mas o maior problema ainda é não saber vivê-la da melhor forma possível. Nada estraga um dia possivelmente bom como a necessidade de sentir uma alegria entusiasmada e incomparável ou nada mais. O cérebro vai continuar seu trabalho analítico e possivelmente neurótico, ele vai continuar tentando me convencer de que eu estou fazendo algo errado e por isso tudo que vem pela frente será desagradável. Ele vai continuar sua tarefa incansável de me fazer questionar quem eu fui, quem eu me tornei e quem eu estou destinada a ser, mas tudo que eu preciso fazer é lembrar do que aquela amiga me falou no lugar de uma palavra de estímulo. Isso ou aquilo que uma amiga menos delicada disse na sua versão de apoio: “A vida também não é um romance. Sempre vai ter uma merda pela frente”. 
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