Sobre agradecer e outras dificuldades

Lembro que no começo do ano passado algumas pessoas decidiram participar do “365 Days of Grateful”, um projeto que consiste em encontrar algo para agradecer todos os dias. De cara eu soube que não conseguiria seguir um projeto desse até o fim, não por achar que não possuo motivos suficientes para ser grata, mas por saber que em algum momento eu surtaria e deixaria o projeto pra lá. É difícil ser grata todos os dias, às vezes você acorda e tudo na sua vida parece errado e impossível de lidar. Às vezes o ônibus tá cheio, o cabelo tá ruim, a faculdade não faz sentido e você tá dando risada do grande amor.
Nós sempre encontramos motivos pra reclamar da vida. Nosso mecanismo funciona assim, nós somos movidos pela própria insatisfação, pelo desejo de escapar de determinada situação ou de alcança-la. Mas a sensação que eu tive nesses breves momentos de reflexão foi a de que esse mecanismo sai de controle em algum ponto e se torna disfuncional. Ao invés de nos mover até um ponto agradável, ele nos impede de considerar qualquer aspecto da vida suficiente.
Um dos meus youtubers preferidos, Ze Frank, fez um vídeo sobre inveja que não tem muito a ver com o tema desse post confuso e quase motivacional (eca) que vocês estão lendo. Mas nos minutos finais do vídeo ele disse algo que ficou martelando: “Eu não acho que tenha explorado plenamente minha capacidade de ser feliz com o que eu tenho”. Talvez essa frase tenha a impressionante capacidade de se aplicar a ambas as situações ou talvez nosso mecanismo disfuncional possa ser comparado a uma inveja que temos de nós mesmos no mundo perfeito das expectativas. Ao invés de explorar o que temos e trabalhar com aquilo que está ao nosso alcance, sentimos inveja da vida do nós que não existe nem nunca existirá, aquele que não sabe o que é ônibus cheio, cabelo ruim, faculdade sem sentido e descrença no grande amor porque está ocupado vivendo dentro da nossa cabeça.
Ser feliz é aquele misticismo do qual eu desacredito. Sempre pensei que as pessoas que esperam atingir a perfeição estão fadadas à uma frustração profunda e que a verdadeira felicidade estava em aproveitar a jornada, por mais brega que isso possa parecer. Mas ainda assim, nunca parei de reclamar da minha vida. Alguma coisa sempre pode melhorar. Até que o Ze Frank joga na sua cara que talvez você não se sinta feliz porque não aproveita o que já tem. Gratidão, essa desconhecida escorregadia.
Ainda é janeiro, por isso ainda tenho tempo pra certas reflexões e resoluções. Sei que é ilusão prometer que eu vou achar um motivo pra agradecer todos os dias até o dia 31 de dezembro, até porque seria trapaça já que lá se foram 15 dias. Só que tenho todo o tempo do mundo pra tentar trabalhar com o que tenho. Não desejar nada a mais, simplesmente aproveitar o que já está aqui e agora. Os amigos, as escolhas possíveis, os dias de folga. Eu podia estar no trem, que é sempre mais cheio, o cabelo fica bom de vez em quando e eu mesma escolhi a faculdade. E pelo menos eu ainda consigo rir. Ser feliz demanda esforço de vez em quando e um obrigada no final. 
P.S.: Isso também significa menos livros comprados e mais lidos. Por favor, me lembrem disso.
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