Como sobreviver ao fim do mundo quando o fim do mundo não vem

Quando eu era criança, existiam duas emoções constantes na minha vida: a certeza de que se a vida fosse um filme, eu seria a mocinha invisível no canto, que faz a coisa certa porque ficou tempo demais observando os outros e a incapacidade de fazer qualquer coisa sozinha. Pois é, crianças são ridículas. Ainda mais quando têm veias dramáticas. O tempo passou e eu nunca consegui assimilar bem o fato de que eu cresci. A vida adulta precisava continuar como aquele destino distante, porque a única certeza que eu tinha sobre ela era que deveria ser perfeita e eu deveria ser o tipo de pessoa que pode lidar com vidas perfeitas e mantê-las dessa forma. Então fica fácil viver e superar qualquer problema. Basta você parar e pensar que bom… pelo menos você pode contar com si própria pra fazer a coisa certa. Eu sempre tive certeza de que faria a coisa certa.
Por isso a vida adulta chega sem que percebamos. Não porque ela vem aos poucos e nos acostumamos com as pequenas obrigações diárias e as responsabilidades que vão se acumulando como quem não quer nada. Nós não percebemos porque achamos que a vida adulta não pode começar antes que nos tornemos aquela pessoa madura que achamos que podemos ser. Como assim ser adulto se você ainda não sabe todas as respostas? Como assim dizer “eu cresci” se você ainda não sabe como agir? Imagino todos os adultos da minha vida me ouvindo falar isso e rindo alto pra dizer depois que eu ainda não vi nada. Essa é a mania deles, olhar pra você e te dar a certeza de que ainda vai piorar. É como se a maturidade deles só fosse validada pelo seu total despreparo perante a vida.
Então chega o fim do ano, coisa que eu não gosto muito. Mas ainda que eu deseje pular o Natal como se fosse uma data qualquer, não consigo deixar de gostar dessa emoção que começamos a compartilhar quando os 365 dias vão se esgotando. É uma das poucas poesias da vida real. Corremos o ano inteiro como se realmente estivéssemos todos atrasados e nossos minutos fossem importantes demais pra serem desperdiçados com besteiras de crianças, mas chegamos a um ponto em que precisamos admitir o cansaço. Então nos juntamos e decidimos, coletivamente, que precisamos de um novo começo. É claro que a diferença entre a noite do dia trinta e um e a manhã do dia primeiro é nula. É claro que os nossos pedidos pro ano novo são apenas itens nos quais nós mesmos deveríamos melhorar. E essa é a poesia. Saber admitir que tudo que você precisa é começar de novo. Como a criança que você foi um dia. Chega aquele momento em que somos invadidos pela necessidade de pesar tudo que ganhamos e perdemos no ano que passou. São só números fictícios e abstrações pra escapar um pouco do peso da vida adulta, e isso é bonito. É bonito precisar escapar só de vez em quando. Então aqui estou eu, pesando as perdas e os ganhos, mas principalmente todos os aprendizados, porque é preciso um pouco de otimismo.
Em 2012 eu subi as escadarias de Santa Teresa, deixei o cabelo crescer, escrevi um pouco mais no blog e menos no meu diário. Recebi visitas queridas de longe, turistei com elas e bebi mate de praia como se não houvesse amanhã. Minha mãe ficou noiva, eu tive minhas primeiras entrevistas de trabalho e meu primeiro emprego. Claro, teve também o primeiro salário. Eu não fui a nenhum show. Eu fiz trabalho voluntário pela primeira vez, ainda que tivesse mais voluntários do que trabalho. Eu caminhei de manhã. Eu fui uma aluna melhor. Claro, até eu decidir largar a faculdade. Eu voltei para o pré-vestibular e resolvi fingir que era o ensino médio do jeito que eu nunca vivi: não falei com ninguém, só assisti às aulas. Eu comecei a estudar italiano e a ouvir música italiana como se a vida do lado de fora da janela do ônibus fosse um filme brega e romântico. Eu conheci as mafiosas cariocas e vi que tenho muita sorte de morar perto delas. Eu desenvolvi um projeto incrível com algumas amigas. Eu comprei o box de Gilmore Girls e terminei de assistir à última temporada no meio da madrugada, quase sufocando de tanto chorar. Eu ouvi muito Death Cab For Cutie. Eu fui ao cinema sozinha pra não deixar a tradição morrer. Eu vi o sol nascer na praia, perambulei por São Paulo e comecei a sentir um ligeiro tédio em aeroportos (antes eu amava aeroportos). Eu conheci a Máfia pessoalmente e pude abraçar cada uma e ver que amizade virtual é a mãe, nós somos reais! Eu conheci a Fran e vi que temos muita sorte por quem entra na nossa vida. Eu vivi o melhor fim de semana da minha vida. Eu pintei a parede do meu quarto com a ajuda das minhas amigas, terminei o projeto 1001 e comecei a usar óculos. Eu tirei o aparelho! Eu jurei ódio eterno ao carnaval e amor eterno ao John Green. Eu adotei uma gatinha e comecei a gostar de gatos. Eu vi amizades desaparecerem, algumas estremecerem e outras se fortalecerem. Eu chorei de soluçar no cinema vendo As Vantagens de Ser Invisível e quase abracei o velhinho do lado porque era emoção demais. Eu participei do NaNoWriMo pela primeira vez e apesar de ter passado longe das 50 mil palavras, escrevi alguns milhares e isso foi o mais longe que eu já cheguei na vida. Eu perdi o Show do Teatro Mágico por causa do maior engarrafamento da história e da tempestade que veio na mesma hora. Eu descobri que Grey’s Anatomy é necessário pra vida de qualquer pessoa sã e ainda estou com o coração partido por causa do último season finale que vi. Eu aprendi a fazer strogonoff. Eu ainda consegui conhecer a Couth antes do ano acabar.
Se 2011 foi o ano em que eu aprendi a fazer tudo sozinha, não foi o ano em que eu decidi que cresci. Aí veio 2012 e provou que não dava mais pra disfarçar. Eu cresci. Não porque aprendi a fazer a coisa certa com todos esses anos de observação. Não porque eu sei lidar com todas as situações e fazer a vida ficar perfeita. Eu cresci pelo simples fato de que eu errei. Muito mais do que todas as outras vezes, em coisas muito mais sérias e com consequências muito maiores. Eu errei daquele jeito que você olha pra trás e se pergunta quem te abduziu, porque você não é o tipo de pessoa que mete os pés pelas mãos dessa forma. Eu errei daquela forma que você sabe na hora que é a coisa errada a fazer. Por isso eu cresci. Porque eu aprendi que é impossível ficar no canto tentando aprender com os erros dos outros. É assim que você percebe que a infância ficou definitivamente pra trás: você olha, percebe quantas vezes sobreviveu e sorri. Quem disse que errar é sempre ruim?
Pedi que 2012 me surpreendesse. Termino a ano pensando que é seríssima aquela história de cuidado com o que deseja. Mas já que desejou, aproveite até o final. Pra 2013 fica só o pedido de serenidade e mais erros aos quais eu seja capaz de sobreviver.
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