Eu não quero vencer na vida

Ou Se nada der certo pelo menos eu não virei você.
É impressionante a quantidade de vezes que alguém pode ouvir receitas de felicidade em menos de uma semana. Tem sempre aquela terapeuta da sua mãe que tem certeza absoluta que você deveria seguir carreira em comércio exterior, porque dá mais dinheiro e estabilidade. Ou aquele seu professor que resolve fazer uma contabilidade rápida de qual é a idade normal em que as mulheres casam e têm filhos. Ou até mesmo aquele seu amigo ou amiga que te acha o máximo, mas queriam muito que você finalmente encontrasse um cara legal. Deus sabe que só te falta um namorado.
Aos 18 anos a maioria das pessoas já está procurando a ideia de ouro que fará com que o Capitão América seja apenas um garoto sortudo que descobriu o caminho da academia. Inventar uma rede social, descobrir a fórmula de um medicamento mais poderoso que Rivotril, acertar todos os números da MegaSena sozinho. É só isso que você precisa pra viver a vida que sempre quis. Pouco trabalho, um carro suntuoso na garagem, uma namorada capa de revista ao lado e um sorriso colgate. Pronto, o cara tá feito. Será o maior vitorioso do almoço de família aos domingos, os colegas de escola se arrependerão de nunca terem tido a mínima fé no sucesso dele. Se for mulher é só acrescentar a família feliz e toda a linha anti-idade da marca internacional mais cara no seu banheiro de mármore. Parabéns, você venceu na vida.
Vencer na vida é fácil. Todo mundo tem uma receita pronta pra te entregar. É como exercício de pré-vestibular: se você errar, vai ter sempre um professor especialista pra te falar onde é o erro e te contar o macete pra nunca perder a questão. No caso, a vida. Só existe um jeito de tomar decisões, fogueira se você resolver arriscar demais ou se decidir se blindar de vez em quando. Permaneça no meio termo da receita e seja agraciado com a vida perfeita. Aquela música do Los Hermanos é até legal, mas ninguém quer levar a vida devagar e correr o risco de não pegar ingressos VIPs pra festa mais importante do ano. Tudo bem, você pode até dar uma de inconsequente, pode ser burro, crítico, pode não se contentar. Mas tenha em mente que você só será feliz se seguir essa receita certeira. Não há espaço pra experimentações no mundo dos vitoriosos.
Obrigada a todos os sábios que tentaram me ajudar até agora. Pensei e repensei muito antes de decidir que não, não quero vencer na vida. Não quero esse sorriso colgate arduamente sustentado pelos cremes antirrugas e toneladas de Rivotril que eu vou precisar se tentar, durante anos, ser feliz pelo método convencional. Não acho que viver a vida inteira agindo segundo princípios que não são meus compense a aprovação do meu tio-avô todo domingo à tarde. Não quero sequer ter o trabalho futuro de explicar a cada amigo meu que não, eu não preciso de empréstimos, terapias ou encontros arranjados.
Depois de muito refletir, me reservo o direito de casar aos 20, 50 ou não casar nunca. O direito de ser professora primária, atriz de filme cult-experimental ou secretária-geral da ONU. Não posso mais ouvir frases que contenham as expressões “carreira do futuro”, “estabilidade financeira”, “arrumar namorado” ou qualquer comparação com a sua vizinha, prima ou amiga da revendedora Avon. Decidi que posso desistir do que quer que seja, quando eu bem entender. Posso também me propor a fazer mais um milhão de coisas, se assim desejar. Tenho o direito de mudar de caminho até o último dia de vida que eu tiver. E se no final der tudo errado, eu só preciso pagar um preço: ter aproveitado cada um dos meus erros. 
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