Nem Holden Caulfield entenderia

Eu tinha 16 anos e resolvi ler o tal do livro que o assassino do John Lennon carregava no dia do crime. Acho que eu esperava enxergar uma conexão brilhante que explicasse a mente dele, já que eu sempre tive uma quedinha por psicologia. Li e me lembro nitidamente da decepção. Todas as críticas que eu tinha pesquisado falavam sobre gerações e sobre como as crianças eram vistas como crianças até de repente virarem adultas, do nada, antes desse livro.
Mas eu li e achei chato. Chato demais, chato de me fazer revirar os olhos e sofrer por ter que continuar a ler. Um certo dia, estava lendo durante uma aula que devia ser de química ou biologia e falei pra uma amiga “Tô me sentindo culpada, mas esse livro é muito chato. Socorro”. No fim, lembro de ter gostado mais um pouco, até anotei alguma coisa sobre ele no meu caderno.
O tempo passou e ano passado resolvi comprar o original em inglês, porque tinha uma ligeira desconfiança de que a tradução havia colaborado com a minha antipatia pelo livro. Só fui ler agora. E é aí que entra esse post.
Não, esse não é um post sobre The Catcher in the Rye, nem sobre livros em geral, nem sobre a história ou qualquer dessas coisas. É sobre como dessa vez, com 18 anos, mais paciência e olhos mais críticos, eu consegui enxergar todas as metáforas escondidas nas palavras simples desse livro. É sobre como eu vi um milhão de significados no que antes era só chatice. E é sobre como, daqui a um tempo, se chegar a lê-lo de novo, vou enxergar ainda mais.
É isso que me apavora. Não são os livros, é o mundo. Não tenho medo por saber que não entendemos todas as metáforas dentro dos nossos livros, mas sim por não vermos aquelas presentes nas pessoas. Da mesma forma que eu deixei passar essa história da primeira vez, sei que devo deixar passar o que as pessoas trazem consigo e ninguém vê senão olhar duas vezes.
Caio Fernando Abreu (mato o primeiro que vier com “orkutizaram o Caio F”. Bitch, please, se você vai começar a ignorar um escritor como ele só pra parecer cool, você não é bem-vindo aqui) escreveu uma vez: “Tão estranho carregar uma vida no corpo, e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros”. Imagino o Caio escrevendo isso pensando em como ninguém sabia realmente quem ele era, mas o que me angustia é saber que eu vivo a minha vida sem me importar com o que os outros carregam no corpo. Eu sei que eu faço isso, você também.
São esses espaços. O que perdemos entre o olhar displicentemente pela primeira vez e o olhar de novo. Na maioria das vezes, nós não olhamos de novo. É a possibilidade de ninguém nunca entender as nossas metáforas, você não entender as minhas e eu não entender as suas. É isso que me faz querer que todos os livros sejam relidos. E todas as pessoas também.

Holden thinks I’m a phony
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