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As reações das pessoas a elas eram quase sempre nulas. Dificilmente alguém notava, entre mulheres tão diferentes, alguma pequena semelhança que fosse.  Houve até mesmo ocasiões em que, levantada a hipótese de terem elas algum traço primordial em comum, foi descartada a possibilidade de a genética ter papel tão definidor nessa história.
Não. Na chamada vida cotidiana, onde os julgamentos devem basear-se em fatos concretos e ações claras, não havia espaço para sutilezas como olhares cansados e gestos relutantes. Toda a semelhança delas ficava escondida e acabavam por passar, portanto, longe de qualquer definição coletiva. Eram tidas como tipos diferentes, regidas por diferentes astros.
Mas se houvesse tempo (e espaço) para closes e cores fortes, se fossem mulheres de Almodóvar, seria perceptível que foram feitas do mesmo pano. Estavam, em segredo, condenadas a repetirem as mesmas provas e tendiam para o mesmo tipo de ações, ainda que nem elas próprias soubessem.
A cada geração que se seguia, criava-se uma nova tentativa de fuga. Cada nova mulher a nascer, era uma mulher a tentar arduamente seguir um novo caminho, rasgar os vícios de caráter tantas vezes nocivos. Negavam a própria semelhança, mas lutavam contra ela todos os dias, desde o abir de olhos até o adormecer.
Não se sabe se algum dia a repetição foi contida, não se sabe se alguma delas conseguiu deixar de sê-lo. Elas foram apenas um daqueles curta-metragens que terminam com um final sem respostas, deixando ao espectador diversas possibilidades. Até o ponto conhecido da história, elas voltavam sempre ao mesmo lugar. Ficavam paradas, com os grandes olhos negros fixos em um ponto no horizonte, cavando escondido um buraco bem fundo onde pudessem enterrar suas dores.