Mind the Gap

Todo mundo conhece uma crônica da Martha (Marthinha para os íntimos, como eu) chamada Mind the Gap. Nela, fazendo referência à famosa frase repetida quinhentas e cinquenta e nove vezes por minuto no metrô de Londres, Martha fala sobre como o nosso sonho é diferente da nossa vida pra valer.  A distância entre e vida  que você sonha e a vida como ela é.
Se em uma manhã de domingo em 2010, quando eu era só uma vestibulanda caótica tentando decidir o que fazer da vida, eu me identifiquei, alguém consegue imaginar o quanto me identifico agora?
Estou em Londres há quase dois meses. 7 semanas, 48 dias (não julguem minha matemática, minha sétima semana termina amanhã) e mais uma por vir. Meu inglês saiu do estágio meia-boca, meu português escrito deu uma linda decaída, e o resto, bom, só Deus sabe como está. Posso dizer com convicção que a vida que estou vivendo agora é exatamente aquela com a qual eu sonhava no dia que li Mind the Gap pela primeira vez. Mas e o vão? É, esse existe mesmo.  Existe e é grande, mas são tantos os avisos que é difícil cair nele.
O vão foram todas as vezes que eu deitei a cabeça no travesseiro e desejei com todas as forças estar em casa, todas as vezes que eu quis a minha mãe pra fazer alguma coisa pra mim, todas as vezes que me forcei a comer comida ruim e fazer cara de delícia, todas as vezes que eu me senti sozinha, todas as vezes que eu quis o Sol e só tive vento gelado e chuva constante, todas as vezes que meus planos deram errado, todas as vezes que eu tive que me virar. Dá teu jeito, a vida fala pra mim todos os dias. Mind the gap, me falam no metrô. O vão é perceber que por melhor que essa cidade seja e por mais que eu a adore, eu não conseguiria morar aqui. O vão é ver que por mais cosmopolita que você ache que é, você pertence ao seu lugar; e o meu lugar é o Rio de Janeiro.
No exato momento que o avião decolou, eu só pensava em como era burra e em como tinha tomado a decisão errada. ‘Foge, você não vai aguentar dois meses! Por que você quer ir embora? Como vai sobreviver sozinha?’ era o que a meu cérebro medroso me perguntava. Logo eu, que sempre me achei tão desapegada e safa. No primeiro dia aqui, perambulei pelas ruas, peguei o metrô, comi fora, tudo sozinha. Pensando em como era ruim não ter ninguém do meu lado e imaginando o vazio de fazer isso durante dois meses. Um monstro morava dentro de mim e ele se chamava medo.
48 dias, nunca pensei que fosse tão rápido mudar uma pessoa. A Milena que pegou o vôo BA248 nunca mais pisará em solo brasileiro. A Milena que vai desembarcar no Galeão daqui há 8 dias pode dizer que viu o vão, realizou todos os sonhos antigos e agora coleciona novos. A grande diferença é que não se sente pequena pra eles, não tem medo do futuro, já sabe caminhar com os próprios pés.
O Rio me aguarda de braços abertos, junto com todos aqueles que eu amo. Londres vai ficar esperando por mim, quem sabe um dia eu não consiga me contentar com o mundo que existe aqui. Mas por enquanto eu fico mesmo é com aquela cidade quente, onde as pessoas jamais se vestirão tão bem quanto aqui, onde o transporte é um caos, onde assalto é comum e tiroteio, rotina. Eu fico com Rio, mesmo com seus milhões de defeitos, porque lá é o meu lugar. At least for now.
Essa semana o blog completou um ano! \o/