Diálogos oníricos #1

– E você? Tentaria? Faria diferente se pudéssemos voltar? – Ela perguntou com o semblante longe, tão longe que ele sabia que não conseguiria alcaçá-la.
Havia uma luz estranhamente forte e clara. Era um daqueles ondes e quandos que não se sabe, mas também não se procura saber, porque é exatamente o lugar e o tempo certos. Só não se sabe como se sabe.
Os segundos sem resposta que se seguiram foram como a eternidade que parecia se estender à frente deles, e antes que ele pudesse ou tivessse o que responder, ela disse:
– Eu também não. É o pior, né? Saber que uma vida inteira sentindo e pensando não foi suficiente pra ela ou pra o que quer que venha depois. – Após uma pausa ela pareceu se afastar do infinito onde se encontrava e olhou-o firme pela primeira vez desde a manhã em que descobriram suas fraquezas – Eu queria. Queria mudar a maneira como esperei o tempo passar pra poder dizer que a vida te levou de mim quando na verdade eu nunca pedi pra você entrar na minha vida. Mas eu sei que não conseguiria, não enquanto fosse assim como me vês.
– Foi sempre e só covardia? Fomos apenas dois medrosos? – Ele perguntou sem realmente esperar resposta e já com algo nos olhos. Enquanto ouvia, ela tentou decifrar pela centésima vez o que tinha nos olhos dele.
De alguma forma tão inexplicável quanto o porquê daquela ligação entre os dois, havia escurecido. Quando se deram conta já estavam olhando uma cidade cheia de luzes em algum lugar abaixo deles.
Sentaram-se lado a lado e de olhos fechados tentaram sentir aqueles luzes.
– Você poderia viver por séculos e no final lembrar de mim? – dessa vez ele queria uma resposta.
– Eu poderia lembrar que eu gostava dos seus olhos. E que você me fazia sentir raiva de ser fraca. E que eu sempre imaginei você sendo mais forte do que eu e me salvando de mim.
– Eu poderia lembrar de como você me fazia agir com medo de errar e você fugir. – ele disse e após um tempo completou enquanto olhava as benditas luzes:
– Eu me lembraria de você. Mesmo depois da eternidade inteira.
– Eu também – ela murmurou, dessa vez olhando para o rosto impassível dele, que dessa vez se virou e encarou-a como quem procura algo.
– Tem certeza? – indagou- É uma promessa séria.
-Tenho – ela não se moveu enquanto falava – Tenho certeza de que eu vou me lembrar. E dessa vez acho que nós seremos capazes de mudar.
Quando terminou, ela simplesmente permaneceu com os braços caídos esperando que ele a abraçasse.
E ele assim o fez, como se dessa vez houvesse uma chance, enquanto as luzes continuam acessas lá embaixo, prometendo algum tipo de recomeço. A eternidade.

Só mais um texto de gaveta, feito em finais de setembro. Aliás, os textos de gaveta andam parecendo mais dignos do que os atuais. Mas acho que isso vive acontecendo comigo.