Junho

Sei que dizer que tá chovendo lá fora é a maneira mais clichê de começar, mas não tem outro jeito. Tá chovendo lá fora. Tá chovendo e nada mais cabe aqui.
Lá deve estar ventando e as gotas de chuva devem gelar alguém por dentro, alguém que se perdeu no caminho e nem sabe como.
Vou ter que ser clichê de novo só pra dizer que Alguém pode ficar tranquilo porque um dia a chuva para, o vento cessa e as gotas todas no rosto secam. Aqui em mim parou, cessou, secou. Só que aí eu comecei a fugir, porque é isso que todos nós fazemos o tempo todo. Cada um foge de alguma coisa e a maioria nem sabe do que.
Eu fugia dos meus monstros particulares, os que vivem embaixo da minha cama. Eles colocaram um véu em mim e ficou impossível enxergar qualquer coisa. Nessa de me desorientar acabei fugindo de mim por medo de me desapontar. Imagina se eu descubro que não presto.
Só que eu posso me esconder, ferir, desorientar, dissimular, só não posso fugir de mim. Eu estou sempre no meu encalço com uma enorme placa anunciando quem eu sou, e isso eu nunca esqueço. Corra, Milena. Corra. Porque aí vem você e se você ficar vai ter que encarar.
Foi nessa de estar correndo que eu olhei pro calendário e vi que Junho tinha chegado. E soube na mesma hora que tinha que parar, voltar. Já é junho, é agora. A hora em que eu assumo as minhas palavras duvidosas e sem brilho e começo a remendá-las. Porque por mais inúteis que elas sejam eu não existo sem elas, e tentar arrancá-las é perda de tempo.
Junho é quando tem que ser, quando eu dou a cara à tapa e persisto nisso tudo de escrever. Elas são teimosas, se eu não gravá-las no papel elas começam a se gravar em mim.
Então que venha junho, suas chuvas e suas palavras.